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nov
26

O desafio

Transcorrera já um bom tempo desde que Deus conversara com ele, mas o tal bebê — a promessa que o Pai lhe havia feito — não nascia. E o tempo da espera, doloroso como ele só, breve produziria suas feridas. Dúvidas apareceriam tanto em seu coração como no da esposa. Na verdade, ela nunca poderia dar-lhe filhos, pois era estéril; e agora, já com a idade avançada, a probabilidade de ter um bebê era praticamente inexistente. A não ser, claro, por uma intervenção direta de Deus. Mas, isso já estava virando piada na vizinhança, pois o bebê por Ele prometido não chegava nunca. “O melhor”, talvez pensassem, “era esquecer a promessa, achar umas coisas para fazer e evitar conversar com conhecidos”, pois assim parariam de se angustiar.

A verdade é que esperar não é fácil. Muita água rolava por baixo da ponte enquanto o menino não nascia. Posso imaginar a pergunta após uma noite de amor do casal: “Será hoje?”, para depois constatar que não tinha sido. Enquanto isso, novas fraldas iam se somando ao monte de cueiros, panos-leves e delicados lençóis já existentes. Em que quantidade já estavam: cinquenta? cem? duzentos? E então, mais uma laçada no tear, e a cada nó do tricô, um suspiro renovando a esperança, chegando adubo naquela certeza que não podia morrer.

Mas, morreu. Desiludida em sentir o útero sempre vazio, Sara amarelou — como muitos de nós durante o tempo de espera — e desistiu do sonho. Talvez tivesse achado que Deus havia se esquecido dela, ou que Ele tinha coisas “mais importantes a fazer”. Presunções à parte, continuar crendo naquelas circunstâncias era um desafio. Aí, autorizou o marido a engravidar a escrava Agar para que o tal filho enfim chegasse. E foi o que ele fez.

Porém, fazer as coisas fora da vontade de Deus gera dores profundas e traz amargura à alma. Com Sara não foi diferente: logo a mãe do menino voltou-se contra ela, humilhando-a, e Sara viu-se forçada a pedir a Abraão que matasse a ambos, enviando-os sem nenhum amparo ao deserto. Não fosse a intervenção de Deus e os dois teriam morrido. E Abraão iria ficar mal na foto, pois Deus lhe havia dito: “Em ti serão benditas todas as nações [pessoas] da Terra”. E o que foi que Abraão fez? Mandou o menino e a sua mãe ao deserto para que morressem! Antes mesmo de nascer a primeira pessoa que daria início às grandes nações, Abraão já saiu matando. Literalmente.

Saiba, fora da vontade de Deus é bem isso o que acontece: destruímos tudo à nossa volta; quando não destruímos antes a nós mesmos. Sabe aquele lance de estar longe de Deus, sofrendo, corroendo-se por dentro, sem saber o que fazer da vida e com um cartão de crédito com muitos zeros de limite? Nessas horas, muitos “vão às compras”. Aplacam o vazio interior que só Deus pode preencher e se enchem de roupas desnecessárias, trocam de automóvel, de home theater, de casa, de emprego, de marido, de esposa… Mas, apesar dessas caras façanhas, o vazio continua lá. Sara quis tampar o buraco interior induzindo o marido a engravidar a escrava para ter nos braços um menino que pudesse chamar de seu; mas, depois que o menino nasceu, o vazio continuou. Então, resolveu descartar o carro velho, digo, o sonho que não deu certo: insistiu e insistiu até que o marido a autorizou a mandar o menino e a mãe ao deserto para morrerem.

Mas, como Deus sempre cumpre o prometido, os que dEle duvidam cedo ou tarde acabam tendo de refazer seus conceitos acerca da Sua fidelidade. Primeiro Ele salvou Agar e Ismael e prometeu fazer dele um grande povo. Não estava em Seus planos gerar um povo através desse menino não desejado por Ele, mas, como havia dito a Abraão que nele seriam benditas todas as pessoas da Terra — e aquele menino era descendente de Abraão —, então Deus o abençoou. E assim, segundo a Bíblia, nasceram os árabes.

Depois, passado um tempo, Ele enviou anjos para dizer novamente a Sara e a Abraão que um menino realmente iria lhes nascer. Mas, ela riu em sinal de deboche; não cria mais. Nem ele. Se cresse, não teria engravidado Agar. Porém, 16 anos depois do nascimento do primeiro filho, daquele que não era para ter nascido, Isaque chegou. E a promessa enfim se cumpriu. De nada adiantou o não crer, o riso-deboche, o filho gerado debaixo do estigma da incredulidade. O plano de Deus, mais uma vez, triunfou!

Muitos de nós somos assim: lemos a Palavra, entusiasmamo-nos com ela, vamos à igreja, oramos, jejuamos e tecemos lindas peças em nossos teares espirituais à espera do cumprimento das promessas, mas, como elas às vezes demoram para acontecer e o filho continua viciado, o marido continua adulterando, a esposa continua deprimida e o arrimo do lar desempregado, o jeito é achar uma outra solução — fazer a coisa do nosso modo — como Sara fez e pronto! Aí, por causa da dúvida, começamos a afrouxar no tempo dedicado à oração, a dormir até mais tarde por pura preguiça, a abandonar os compromissos assumidos, a não ler mais a Palavra e acabamos por nos perder. Em vez de olharmos para Cristo, nossa esperança, fazemos como Pedro ao sair do barco e começar a andar sobre o mar: fixamos o olhar apenas nas circunstâncias e afundamos. E Jesus se vê obrigado a vir nos estender a mão para que não morramos e nos percamos: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?”. Portanto, não dê uma de Sara ou uma de Abrão e continue firme na espera. Não se desespere. Desespero vem de des-esperança, “sem esperança”. Quem não sonha ou perde a esperança entra em desespero. Eu espero há 18 anos o cumprimento de uma promessa de Deus (já está quase no mesmo tempo em que Abraão esperou Isaque), e Ele está sempre me dizendo através de outras pessoas: “Filho, calma. Eu não esqueci de você. Ainda não chegou a tua hora”. Às vezes sofro, às vezes choro, às vezes canso de esperar. Mas, depois me recomponho e visto novamente a minha veste de fé e prossigo, fiel Àquele que prometeu.

Bem, nós até podemos esquecer (será que conseguimos?) que Deus um dia nos prometeu isso e mais aquilo, mas Ele não esquece jamais! Pode ser demorado para nós, mas para Ele as coisas vêm no tempo certo. Esse negócio de dizer que “Deus tarda mas não falha” e que “Deus escreve certo por linhas tortas” é errado. Deus é um Deus “da hora”, como diz a moçada, um Deus que não se atrasa e que sempre escreve certo por linhas certas. E depois, nunca é demais dizer que Ele não é nosso empregado para atender-nos quando queremos, mas um pai amoroso e dedicado que atende a cada prece dentro de um propósito claro e específico. Crer nisso e esperar é confiar em Seu caráter, é crer que Ele não é mentiroso, alguém que não se alegra em nos negar coisas e realizações, mas no inverso. Jesus disse: “Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa” [João 16:24]. Então, dar faz parte do Seu jeitão, da Sua pessoa.

Sara riu duas vezes: a primeira, quando o anjo falou do menino e ela duvidou; e a segunda, com certeza, quando ele nasceu. Que nós possamos rir sempre, certos de que Aquele que prometeu haverá de cumprir integralmente o prometido. Passarão os céus e a terra, mas a Sua palavra não passará. Sara que o diga.

1 comentário

  1. Olavodisse:

    Obrigado por esse texto semanal. Alguns deles me fascinam mais, outros menos, porém reconheço que são pérolas por atualizarem a mensagem bíblica e doados com muito amor. Sem dúvida alguma, você já recebeu uma graça monumental, semelhante àquela de Chiara Lubich, quando ainda bem jovem, pedia nas suas visitas a Jesus Eucaristia: “Concede-me ao menos um pouco da tua Luz e do teu Amor”.

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