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dez
03

Rute e Ester — uma reflexão

Se você tem um pouco de intimidade com a Bíblia, então já deve ter ouvido falar ou mesmo lido os livros de Rute e Ester. São as duas únicas mulheres a emprestarem seus nomes para intitular livros na Bíblia pelo menos, na evangélica. A católica tem o de Judite.

A história de Rute inicia com a de sua sogra, Noemi, uma mulher judia que migrou para o território dos moabitas com seu marido porque ambos estavam passando fome na região de Judá. O marido de Noemi, que se chamava Abimeleque, veio a falecer, ficando a pobrezinha com os dois filhos, os quais se casaram com duas moabitas. Mas, logo morreram também os filhos. E a viúva, desgostosa, decidiu voltar à terra de Judá, onde tinha parentes. Rute, uma das noras, foi com ela, para não deixá-la ir sozinha, mesmo contra a vontade da sogra. Noemi tinha um parente do marido em Judá, chamado Boaz, o qual era muito rico, bondoso e temente a Deus, admirado e respeitado por sua conduta. Rute foi ao campo para juntar do chão as sobras que caíam das mãos dos homens que faziam a colheita e acabou entrando nas terras de Boaz. Este veio ter com ela e disse-lhe que podia colher do chão, e que nenhum empregado seu a incomodaria. Depois, mandou que lhe dessem uns bons feixes de cereal. Conversa vai, conversa vem, os dois aproximaram-se e Noemi sugeriu que a nora se casasse com Boaz. Uma vez casados, logo lhes nasceu um filho, e a sogra Noemi em tudo passa a ajudar a nora Rute. E todos que as conheciam as chamavam de bem-aventuradas. E diziam a Boaz: tu és um homem de sorte!

Já a história de Ester inicia-se com uma festa que o então poderoso rei Assuero (ou Xerxes) oferece aos príncipes e governadores das suas 127 províncias, que iam da Índia à Etiópia. O rei estava alegre porque havia bebido muito vinho e mandou chamar a rainha Vasti, para que todos conhecessem a sua formosura. Mas, ela desobedeceu a ordem e não apareceu. O rei, furioso, destronou a rainha e mandou encontrar uma outra. Depois de dar busca em todo o reino, Ester, uma judia, foi a escolhida. Seu pai adotivo, Mordecai, foi com ela. E andando um dia pelo palácio, Mordecai ouviu que queriam matar o rei. Conta para Ester, que conta para o rei, e os traidores são mortos. Aí, o rei elege um novo chefe da segurança, um tal de Hamã. E por sugestão do próprio, cria um decreto mandando todo mundo se ajoelhar diante desse Hamã quando ele passasse. Mordecai, que era judeu, se recusou a honrá-lo. Hamã então decide matar Mordecai por causa disso; depois, pensa melhor e decide matar também todo o povo dele no reino, conseguindo, por meio de artifícios, um decreto real autorizando-o a fazê-lo. Ester faz chegar essa notícia ao seu povo e cria um plano para salvá-lo, indo até a presença do rei. Para tanto, convida-o e também a Hamã para uma festa em seu palácio. Na festa, o rei bebe bastante e diz: “Peça-me o que quiseres, Ester, e eu te darei”. Ester conta que queria a morte de um subordinado do rei que estava tentando matar todo o povo de onde ela tinha vindo. O rei pergunta quem é essa pessoa. Ester diz que é Hamã. O rei fica nervoso e sai para a varanda. Hamã, tendo ouvido a conversa, pois estava próximo dos dois, vendo a morte por perto, aproveita ao ver que o rei saiu para a varanda e joga-se sobre o sofá da rainha a fim de pedir-lhe clemência e, sem querer, cai sobre ela. O rei volta da varanda e vê a cena. Então diz: “Além de querer matar o povo da minha esposa, ainda está querendo tocá-la?”. No fim das contas Hamã, por ordem do rei, morreu na forca que mandara preparar para Mordecai, o pai adotivo de Ester, o qual passou a ser o segundo no reino depois do rei. E Ester ficou no trono com Assuero.

Amados, um dia li esses dois livros um em seguida do outro e, emoções à parte (os livros são apaixonantes), analisei algumas situações, tal como o nosso próprio Deus recomenda: “Medite na minha palavra”. Gostaria de falar a respeito das curiosidades que deles extraí. Claro, não são críticas, são reflexões, pois não questiono a Palavra de Deus: o que está lá, está lá e pronto. Isso não discuto e muito menos julgo. Mas, que me fizeram pensar, isso fizeram.

Ester teve bastante: pai adotivo no lugar do que morrera, depois riqueza, poder e prestígio, e dela não mais se fala. Já Rute perdeu o marido, o cunhado e o sogro e, depois de rastejar na lavoura atrás de comida, ainda constou na árvore genealógica hebraica como avó do rei Davi e antepassada de Jesus. Nos dez capítulos de Ester, o nome de Deus não aparece sequer uma vez, enquanto que o do rei pagão Assuero é mencionado mais de 150 vezes; também não há alusão à oração nem a nenhum tipo de serviço espiritual, exceto o do jejum. Já no livro de Rute o nome de Deus aparece 21 vezes. Ester conhecia a Deus, mas casou-se com um gentio; Rute era gentia e se casou com um judeu. Rute era elogiada por sua humildade e amor à sogra; Ester, por ter-se tornado rainha. No final, existe o fato comum de que ambas ficaram bem, pois os dois maridos eram ricos e poderosos.

Às vezes, lendo ou ouvindo a Palavra, somos tomados pela emoção do momento e deixamo-nos levar por mil pensamentos. Tendemos a dar mais valor a histórias como a de Ester do que às de Rute. A da primeira tem mais charme, mais status, mais… “tchan”. A da segunda, bem, essa é igual à da maioria das pessoas: dor, solidão, pobreza, e lá no fim alguém que aparece, se apieda e dá um jeito nas coisas.

Muitas vidas cristãs têm lindas e emocionantes histórias a relatar, mas, às vezes, o nome de Deus não aparece nelas. Basta ouvir pessoas contar de como foram salvas de um acidente, de como receberam um dinheiro praticamente perdido justo na hora em que mais necessitavam, de um filho que passou no vestibular de medicina sem que se saiba como, etc.: em seus lábios, muitas vezes, não aparecem as palavras “Deus”, “milagre” ou “graça”, da mesma forma que o livro de Ester não cita Deus. Muitos acham que as bênçãos recebidas são obra do acaso, uma coincidência, digamos. Claro, Ester era judia, seu pai adotivo também, e ambos tudo fizeram para que Jeová, o deus dos hebreus, fosse honrado. Entretanto, não é disso que falo. Falo de um livro que, curiosamente, não cita Deus, da mesma forma que algumas vidas não o fazem, mesmo quando se sabe que, por detrás de todo aquele bem-estar, daquela paz, daqueles filhos inteligentes e saudáveis, daquele casamento feliz, está a mão de Deus. “Sem mim,” dizia Jesus, “nada podeis fazer” [João 15:5]. As pessoas não falam, mas sem Jesus na causa, nada dessas boas coisas lhes aconteceriam.

Vamos a fatos mais corriqueiros. Digamos que você seja cristão e em casa ore à mesa antes das refeições, dando graças a Deus pelo alimento recebido. Imagine-se agora num restaurante. Você é empresário, está de terno e gravata e há outros colegas empresários em tua mesa. É um almoço de negócios. Eles não são cristãos; ou pelo menos suas atitudes nunca revelaram isso. No instante de levar a garfo à boca, o Espírito Santo te recorda que você não agradeceu a Deus pelo gostoso almoço que te espera. Você para e pensa: “Oro ou não oro? Fecho os olhos e agradeço na cara dura, como sempre faço em casa com as crianças, ou entro na deles, deixando quieto e começando a comer?”. Bem, o que você faria eu não sei. Te digo o que eu faço: fecho os olhos, inclino a cabeça e agradeço a Deus em silêncio. Às vezes, quando estou com apenas um ou dois empresários, sou mais ousado e peço a ambos para orarmos antes de comer. Meio sem entender, concordam, claro. Aí, digo algumas palavras de agradecimento e pronto, começamos a comer. Não raro, os garçons que chegam naquele momento para perguntar-nos sobre o que desejamos beber oram junto, ou apenas silenciam. Isso faz diferença nos meus relacionamentos comerciais: de um instante para outro, o tom da conversa muda e as pessoas com as quais estou, já notei, passam a tratar-me com mais respeito.

Sabe, você não pode envergonhar-se de Deus diante dos outros. Jesus disse que se isso acontecer, Ele também se envergonhará de você no dia do juízo final e você irá para o inferno [Lucas 9:26]. Claro, não precisa subir na mesa e gritar que está agradecido a Ele pela refeição: você não é um bobo, um tolo. Mas, se Ele pediu [ou mandou?] que o amássemos acima de todas as coisas e pessoas [Deuteronômio 6:5], então demonstre isso.

Entende agora por que a comparação entre os dois livros me deixou pensativo? Foi porque me perguntei: e no livro da minha vida, quantas vezes o nome de Deus aparece? E de que forma? As pessoas O percebem na minha vida? Os textos que escrevo demonstram que Ele realmente age em mim? E com você: a palavra “Deus” é perceptível como no livro de Rute ou é invisível, oculta, como no livro de Ester? Ambas eram mulheres de Deus, talvez como você seja. Mas, o nome de Deus está estampado nesse teu livro? Está claro, visível? Podem falar da tua vida a céu aberto, tal como falou a sunamita sobre o profeta Eliseu: “Lá vai um santo homem de Deus”? [2 Reis 4:9]. Ou o nosso cristianismo é subliminar, acobertado, não-aparente, não-visível?

Conheço algumas pessoas que se dizem cristãs, possuidoras de máquinas possantes, as quais, quando viajam em rodovias sem muitos veículos, tipo as do interior do Mato Grosso, andam a 200, 220, 230 km/hora. Dizem que “se não andarem naquela velocidade, os outros passam por cima deles”. Até onde eu sei, o máximo que se pode trafegar em estradas no Brasil é a 120 km/hora. Um pastor disse-me esta semana que, de tanto me ouvir falar em obediência a Deus e às autoridades, nunca enxergou tanta placa de 30, 40, 60, 80 km/hora. Antes, andava na velocidade que queria. Agora, anda naquela que a lei manda. Bem, não sei como você anda. Talvez você nem carro tenha, ou não dirija. Mas, se quiser saber a quantas anda o teu amor por Deus, pergunte a você mesmo: se fossem escrever um livro a teu respeito após tua morte, você acha que o biógrafo citaria o nome de Jesus — o nosso Deus por excelência — quantas vezes? Ou nem O citaria? As pessoas sabem que você é cristão? Você age como um? Notam que você é diferente, que não fura fila do supermercado ou do coletivo urbano, e que anda na contracorrente, na contramão do mundo?

Se não anda, não se apavore: ainda dá tempo. O livro é o da tua vida; e o escritor, você. Nesse teu livro ninguém põe o dedo nem a caneta, a não ser você. Mesmo Deus não interfere nele, pois senão você não seria livre para fazer o que quiser. Amar a Deus é uma opção, não uma obrigação. E é por isso — por sermos totalmente livres — que somos totalmente responsáveis pela nossa salvação. Jesus já morreu por nós e deu-nos o céu. Chegar até lá é tarefa nossa, não dEle. “Ah, Ele se foi e deixou-nos aqui sozinhos”, você pode alegar. Não é verdade. Ele deixou-nos o Espírito Santo, o consolador, o cheio-de-poder, aquele que veio do céu apenas para nos ajudar a chegar a ele. Mas, como eu dizia, ainda dá tempo de começar a escrever “Jesus Meu Salvador” em tuas páginas. Se os livros de Rute e Ester começaram de forma muito diferente — o primeiro com muito sofrimento e o segundo com muita prosperidade —, no final eles terminaram de forma idêntica: relatando o sucesso de ambas em todas as áreas de suas vidas. O que nos incentiva a dizer que, não importando como seja a tua vida hoje, estando o teu livro vazio ou repleto de menções a Jesus, sendo você um fraco na fé ou um guerreiro de Deus, tendo você começado há muito ou há pouco tempo, sofrendo bastante ou vivendo sem dificuldades, saiba que o amor de Deus passa por cima de tudo isso e te convida a gozar uma vida de paz aqui na Terra e de esplendor e alegria no céu. Porque, no fundo, não importa como nossas vidas começaram; importa, isso sim, o que delas fazemos e como elas terminarão. Jesus começou num cocho cheio de palhas e acabou no céu, à direita de Deus. Então, admitamos que Ele entende desse negócio de “chegar lá”. Basta entrar na escola dEle, tomar umas aulas e aprender o O-B-D-C, o alfabeto cristão. Obedecendo as suas ordens e ensinamentos, não tem erro: você já está com um pé no paraíso. O caderno e a caneta você já tem, inclusive um livro para anotações. O resto é com você.

E aí, vamos começar a escrever?

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