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fev
11

Cai, cai, balão!

Desejando encorajar o progresso de seu pequeno filho ao piano, sua mãe levou-o a um concerto de Paderewski. Depois de se acomodarem, a mãe viu uma amiga na plateia e foi saudá-la. Tomando a oportunidade para explorar as maravilhas do teatro, o menino pôs-se a caminhar e suas andanças rapidamente o levaram a uma porta onde estava escrito “ENTRADA PROIBIDA”. Quando as luzes diminuíram e o concerto estava prestes a começar, a mãe retornou ao seu lugar e descobriu que o garotinho não estava lá. De repente, as cortinas se abriram e as luzes caíram sobre um belíssimo piano Steinway no cento do palco. Horrorizada, a mãe viu seu filho sentado ao teclado, inocentemente tocando as notas de “Cai, cai, balão”. E foi justo naquele momento que o grande mestre fez sua entrada, debaixo de muitos aplausos. Rapidamente, dirigiu-se ao piano e sussurrou ao ouvido do menino: “Não pare, continue tocando”. Então, debruçando-se, Paderewski estendeu sua mão esquerda e começou a preencher a parte do baixo. Logo colocou seu braço direito ao redor do menino e acrescentou um belo acompanhamento à melodia. Juntos, o velho mestre e o garotinho transformaram a canção infantil. Ficou soberba! De um instante para outro, a situação deixou de ser embaraçosa para tornar-se uma experiência maravilhosamente criativa. O público, numa mistura de sentimentos que iam do perplexo ao maravilhado, irrompeu em aplausos. Não é fantástico?

Assim é Jesus conosco. Olha a nossa vida e vê que a conduzimos como o menino ao piano: de uma forma esforçada, mas fraca. E então vem ajudar-nos e a coisa melhora. E essa “coisa” pode ser tanto uma melodia como a sua vida, tanto seus sonhos como seus projetos. De fato, aquilo que prometia ser uma tragédia — uma criança tocando música infantil num concerto de grande relevância — acabou transformando-se numa obra-prima, num momento de raro prazer. A vida que você leva também pode ser mudada. Se não, por qual razão Deus teria enviado Jesus ao mundo?

Não desanime se você anda “desafinado”. Ou se a música da tua vida, em vez de uma valsa vienense, virou um sambão de fundo de quintal. Saiba, o desânimo não vem de Deus. Ele quer mais é ajudar-lhe a conduzir as notas da melodia, e não que você saia correndo do palco. Entenda por “palco” a vida, e por ator, você. Portanto, não é necessário fugir ou pensar que a musiquinha que você toca — refiro-me às coisas que você faz, ou aos dons que possui — não serve para nada. Aquilo que inicialmente é anunciado como tragédia, pode perfeitamente terminar em fortes aplausos. Lembra do ladrão na cruz? Nossa, o cara foi mal, muito mal. Acabou condenado e pregado ao lado de Jesus. Porém, a previsão de ele perder tanto a vida daqui como a do céu não se confirmou: foi-se apenas a terrena, pois no mesmo dia ele estava com Jesus no paraíso.

Quem sabe você está se achando medonho? Ou então perdeu a autoestima? Bem, faça como o garotinho: deixe o Maestro dos maestros, o Condutor dos condutores tocar sua vida com você. Não é POR você, é COM você. Ele não tocará sozinho, não lhe mandará sair da banqueta; ao contrário, dirá: “Fique. Não pare, continue tocando”. E tocará com você, dia após dia, ano após ano, a sinfonia da tua vida. Como Paderewski, chegará de mansinho, começará a tocar com uma mão, depois envolverá seus ombros com seu braço amigo e, por fim, tudo terminará numa bela apresentação. Bem, aí você pode novamente dizer: “Mas sou feia, sou pavio-curto, minha empresa quebrou, sou incompetente, sou divorciado, ninguém gosta de mim, tenho espinhas na ponta do nariz e meu cabelo entorta ao dormir”. Certo. Mas então, por qual razão o “Cai, cai, balão” ficou bonito e o público aplaudiu em pé? Existe “Cai, cai, balão” bonito? Digo “bonito” ao ponto de ser tocado em uma noite de gala? Não, não existe. Foi necessário alguém melhor, mais experiente, aliar-se ao menor para que a coisa desse certo.

Creio de todo o coração que realmente não importa como é a canção da tua vida — triste, alegre, infantil ou fenomenal —, mas ela só irá melhorar nas mãos de Deus. Como dizia João Ribeiro em uma das primeiras citações da Frase do Dia: “Não há campo tão despido e pobre que não se adorne vez por outra de flores, nem floresta tão erma e ao desamparo que não tenha as suas filomelas”.  Com Deus, essa frase tem resultado garantido: se ele disse que transformaria a vida daqueles que nele creem, então ele o fará. Por isso, não desista, mesmo que você ache horrível a sua performance. Chame Aquele que está doido para mostrar que sabe tocar bem e ponha-o ao seu lado. Sinta-se confortável e seguro, tendo a seu favor o melhor concertista que já pisou neste mundo. E deixe a vida rolar até o fim.

Então, não tente fazer as coisas sem Deus, não dará certo. Também não se iluda, ter Deus ao seu lado não significa viver num mar de rosas ou dormir num colchão forrado de dólares. Todos sofrem — uns mais, outros menos; mas, todos sofrem. O fato é que muitos cristãos escondem as suas dores, notadamente quem está à frente de um ministério, e aí pensa-se que ser cristão é = ser feliz, quando felicidade mesmo não existe, é apenas invencionice do diabo. Sofrer faz parte da vida. Tente apenas viver em vez de buscar a felicidade, quem sabe a dor diminuirá. Porque dói buscar uma coisa que não existe. A gente sempre se frustra, pois nunca a encontra. Felicidade mesmo é só quando estivermos no céu, ao lado do Perfeito. Jesus chorava, sofria e chegou até a dizer que estava angustiado até a morte [Mateus 26:38]. E era Deus. Então, vivendo aqui na Terra, sempre teremos dores.

Jesus também disse: “Sem mim, nada podeis fazer” [João 15:5]. Descanse, portanto. Tire uns momentinhos por dia, logo ao acordar, e entregue os teus fardos, o teu dia, as tuas necessidades para ele cuidar. “Vinde a mim, vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” [Mateus 11:28], ele insistiu. Por isso, peça ajuda. Não toque sozinho. Não insista, vai virar no samba do crioulo doido; e a tua vida é longa, você ainda tem uns bons anos pela frente. O projeto de Deus para você não é um sucesso passageiro como “Ai, se eu te pego”, mas uma longa sinfonia onde muitos estão envolvidos.

Se é para viver, então vivamos. Se é para tocar, então toquemos. Mas tenhamos um Paderewski — Jesus — ao nosso lado. Tocando com ele, nossas notas nem serão percebidas. E os aplausos dedicados a ele também serão para nós.

fev
04

Pimenta na uva

Dias atrás meditava na passagem onde Jesus ensinava aos apóstolos: “Eu sou a videira e vocês, os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto” [João 15:5]. Jesus falava da videira, a popular parreira, e dizia que nós somos os ramos. Ele, Jesus, está enraizado no solo e é por Ele que os nutrientes chegam até nós, os ramos, os quais depois darão frutos. No capítulo 11 do livro de Romanos o apóstolo Paulo coloca a situação em termos de oliveira boa (cultivada) e má (brava), sendo que a primeira, Jesus, recebe o enxerto da segunda, a humanidade com seus pecados — e assim somos enxertados nEle. Desta forma, com o tempo a oliveira boa, que é maior — pois é a árvore principal — passa a injetar sua seiva no pedaço da oliveira brava anexada, que é menor, tirando suas toxinas e mudando-a em um ramo que produz muitos frutos.

Interessante notar que a oliveira brava não contamina a boa; ao contrário, esta última é quem perde suas características, ficando igual à boa. Falando mais objetivamente: nossas maldades e pecados não são suficientes para contaminar Jesus; antes, é Ele quem nos injeta Sua seiva e nos transforma nEle. E isso não é complicado ou difícil. Mas, tal enxerto, lembre-se, não vem escrito na certidão de nascimento que lhe deram quando você nasceu. É necessário uma opção clara de adesão a Ele, saindo da posição onde você se encontra e enxertando-se nEle.

Quando você aceita Jesus como salvador da sua vida e entrega-se a Ele, está literalmente cortando relações com o mundo pecaminoso. Os laços que uniam você às bebedeiras, à mentira, às negociatas fraudulentas, à sonegação, à violência e a tudo que o tornava inimigo de Deus, são rompidos. Como balão cheio de ar que se desprende do solo, você alça novos voos e fica cada vez mais distante das coisas que não são para aproximar-se daquelas que são. Você agora é dEle. Faz-se necessário, então, revitalizar a vida que você vivera até agora. Por isso Ele “anexa” você a Si mesmo, adota-o de forma 100%, corta a casca da oliveira (ou videira) que Ele é, corta um pedaço de você e lhe cola nEle. Pronto, você agora é parte de Jesus. E aos poucos a Sua seiva doce e regeneradora vai entrando em você e transformando-o numa nova árvore, numa nova criatura, numa nova pessoa — num filho de Deus. E você, que antes só falava e pensava bobagens, agora já não fala mais; que antes agia sem pensar e sem bom senso, agora o faz com prudência e dá exemplo de muitas virtudes; que antes não era, agora passa a ser. Ou seja, passa a existir verdadeiramente, e não apenas na Terra, mas também nos céus. Quando você aceita que Jesus dirija a sua vida, você passa a ter o seu nome escrito no Livro da Vida. Antes não constava lá; agora consta. Leia Apocalipse 3:5, se desejar; ali explica tudo.

Porém, já aviso de imediato, não adianta ter pressa. É, não adianta! Porque a seiva vai entrar devagar no enxerto que é você, e bem devagar. Esqueça esse lance de querer mudar o jeito de ser do dia pra noite, isso não existe. Quem dá as ordens é ela, a videira; você é apenas um pedaço de uma árvore que não produzia e foi anexado a uma planta muitas vezes maior, melhor e mais forte que você. Então, é ela quem decide; ela é quem o transforma, a seu tempo. Por isso Moisés ficou 40 anos no deserto esperando pelo chamado de Deus para tirar o povo do Egito: para que esquecesse de seu glorioso passado faraônico e se tornasse simples, manso e humilde. Demorou, mas deu certo. Pedro, o apóstolo atirado e nervoso, também demorou um tempão para acalmar seu temperamento e adequá-lo ao de Jesus (jogou-se no mar intempestivamente para caminhar sobre ele e afundou, falava pelos cotovelos, prometia o que não podia cumprir e traiu Jesus negando-o três vezes). Lembra de Mateus, o cobrador de impostos, também chamado de Levi? Você crê mesmo que um tirano como ele, que se voltou contra o próprio povo e passou para o lado dos inimigos romanos iria mudar de um instante para o outro? E quando você lê as três cartas do apóstolo João e nelas encontra palavras doces como “filhinhos”, “caríssimos” e “amados”, não imagina que o evangelista Marcos antes o chamara de “filho do trovão”, não é? O que isso quer dizer não sei, mas não deve ser coisa boa. E o apóstolo Paulo, então? Deus permitiu-lhe ficar anos encarcerado, mas foi de lá que ele escreveu as belas “cartas da prisão”, que é como nós chamamos algumas delas.

Entendeu o porquê de Deus não ter pressa? Ele é paciente. Por isso não adianta querer rapidez na conversão, pois seria o mesmo que pegar uma plantinha e puxá-la para cima a fim de que cresça mais rápido. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos”, diz o Pai celestial [Isaías 55:8]. Para Ele, importa que você, ramo enxertado, não apenas dê frutos, mas dê bons frutos. Ele sabe que você é oliveira brava, mas Seu remédio é infalível: enxertando-nos em Si, faz Seu sangue correr em nossas veias, e lentamente a cachaça, o uísque, a nicotina, as doenças físicas, as imagens eróticas que poluíram o cérebro, os pensamentos negativos, as depressões e outros que tais vão sendo absorvidos por Jesus, que a tudo faz novo, que a tudo regenera e que a tudo santifica. Após um certo tempo, o cérebro começa a pensar diferente, o corpo recebe os novos e saudáveis estímulos e passa a se comportar de forma adequada, trazendo alegria e leveza de viver. E por que alegria e leveza de viver? Ora, por uma razão muito simples: embora o Santo dos santos seja a videira, sustente você e o mantenha ligado à fonte da vida, Ele lhe permite ser você mesmo todo o tempo e produzir e sustentar os doces cachos de uva. É, você mesmo… Note o final da frase: “Eu sou a videira e vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto.” Quem vai gerar o fruto é você. E também a sombra para que os sedentos se sentem no chão e se deliciem em paz com os frutos que você produziu. Puxa, quer coisa melhor? Tua vida de pau-de-arara ou palanque de banhado ganha nova expressão, sentido e produtividade. O que antes nada era, depois de enxertar-se passou a produzir sombra, uvas e todos os sucos, geleias, doces e gostosuras que advêm da videira Não é para se sentir honrado? Entende agora a razão dos dons espirituais, como o de cura, de profecia, de visão, etc.? Quem os dá é Deus, mas você é o instrumento, a ferramenta que o pai usa para ajudar o outro. E se quem foi curado se alegra, imagine então você.

E aí vão atirar-lhe pedras. Mas, saiba, só se atiram pedras em árvores que dão frutos; ninguém apedreja um cinamomo, por exemplo. Por outro lado, se você nada sofre, é porque está do jeito que o diabo gosta: você nada faz que o incomode, então ele não lhe perturba. Cristão que não sofre é o que já morreu; os demais — eu, você, nós, eles — teremos de lutar até o último instante de nossas vidas para permanecermos com ânimo e fiéis à videira. Se nos desligarmos dela, o ramo perderá o viço e secará. Aí, diz Jesus, ele para nada mais serve, a não ser ser cortado e jogado no fogo [Mateus 3:10).

Da próxima vez que você vir um cacho de uvas, lembre que ele existe somente porque um ramo estava ligado à videira e o gerou. Qualquer outro que não nasceu assim é fruto falso, artificial, imitador do original, e desses há muitos por aí, e até que se escondem bem em meio aos naturais. Agora, se você quiser ser um fruto bom e consistente, então se ligue na videira verdadeira. Não é em qualquer videira, tem de ser na verdadeira. Aí, não tem erro: por pior que você seja, ela o transformará inteiramente, fazendo de você uma nova criatura. Porque se Jesus perder pra você, vai empatar com quem? Então, sossegue. Por pior ramo que você seja — tipo ácido, até mesmo um tanto apimentado — aos poucos Jesus lhe transformará em alguém de muito valor. Basta olhar o preço de um champanhe Veuve Clicquot para convencer-se rapidinho.

jan
28

De Eva a Maria

Desde sempre a mulher teve, infelizmente, um papel secundário na existência humana. Há povos e religiões que ainda a tratam como um ser inferior, subserviente, que deve entender que é apenas um objeto e nada mais. Já disse aqui que o judaísmo antigo culpava a mulher por Eva ter lançado a humanidade nas trevas após conversar com o diabo, e por isso todas as suas descendentes deveriam aceitar o fato de que todo o sofrimento humano foi causado pela primeira delas. No dia do acerto de contas no paraíso — lembravam os homens constantemente às mulheres — Deus olhou para Adão e disse que, a partir dali, comeríamos o pão com o suor do nosso rosto, que a terra produziria espinhos, e que, enfim, a vida seria dura para todos. Por causa da desobediência do casal, Deus cometeu o primeiro assassinato num reino que era para ser apenas de vida, tirando a vida de dois animais para dar suas peles ao casal que agora começaria a sentir frio. E antes de serem expulsos do paraíso, Deus ainda dirigiu-se à serpente e disse-lhe: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o descendente dela; este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar [Gênesis 3:15]. E aí a humanidade entrou de cabeça nas trevas, no pecado e na dor.

Dependendo dos olhos com que se lê a Bíblia, pode-se ver nela palavras de amor ou de ódio, de condenação ou de salvação, de ternura e afeto ou de desprezo e frieza, os ideias de um Deus-pai ou de um Deus-carrasco. Note o que disse Deus à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o descendente dela; este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Deixando fora a questão de Deus ter posto inimizade entre a mulher e as cobras (não creio que os homens também queiram ter amizade com elas), o restante da frase é, ao contrário do que muitos pensam, bastante animador. Tanto para Eva como para nós. Porém, se os olhos que agora me leem enxergarem no Deus Criador um Deus mau, então irão discordar de mim. Se, ao contrário, tiveram ou têm boa relação com o pai terreno, certamente olharão para o pai eterno como alguém gentil e amoroso. E é nesse segundo que me baseio para escrever que Eva recebeu, junto com sua condenação, também o perdão divino e a sua libertação.

Deus disse que poria inimizade entre os descendentes do diabo — os demônios — e os descendentes de Eva — Jesus. Era uma promessa! E Eva, em meio à dor de entender que, por sua causa, teria de deixar de viver no paraíso, em ver o marido ser humilhado por Deus e ter que começar a trabalhar duro, em ouvir as maldições de Deus contra a terra que agora passaria a produzir espinhos e em ver a morte de dois animais para vesti-los, também ouviu que dela viria um descendente que derrotaria a pérfida serpente e o seu poder enganador. Estranho… Era de se esperar que, em meio a tanta tragédia, Deus, quando finalmente se voltou para Eva, disparasse sua metralhadora e a arrebentasse por dentro. Mas, não. Isso poderia ocorrer se Deus fosse mau. Entretanto, Sua bondade foi além, muito além: abominou o erro de ambos, claro, mas de imediato planejou reconquistá-los, restaurá-los e trazê-los novamente para junto de Si. E não seria Ele a fazê-lo, mas sim uma pessoa de carne e osso, nascida da descendência da própria Eva. Porque, se de uma mulher veio a confusão, também de uma mulher viria a solução. E ela então esqueceria sua mágoa, sua vergonha, sua humilhação e seu remorso em ter lançado a humanidade na dor. Sim, dela viria uma pessoa igual a ela e a Adão e destruiria o mal. Então nasceram Caim e Abel, seus primeiros filhos. “Ah,” deve ter ela pensado, “agora Deus vai destruir o poder do diabo e fortalecer-nos com Seu espírito para voltarmos a ser como antes. Eis dois descendestes meus; Deus pode até escolher qual deles fará isso”. Mas, aí Caim matou Abel. E Abel foi amaldiçoado por Deus e passou a vagar pelo mundo. Caim teve filhos e netos, mas a maldade e os assassinatos continuarem entre eles e Eva viu seu sonho morrer. Até que morreu também.

Assim como ela, muitas outras mulheres vieram a conhecer Deus. Umas, desde o berço; outras, como a prostituta Raabe, bem depois, porque nasceram em nações ou povos que não conheciam o Deus de Israel. E desta forma, tanto mulheres boas e santas como malvadas e pecadoras foram sucedendo-se umas às outras na tarefa de gerar um filho que pudesse restabelecer a ordem na Terra. Os anos e os séculos se passaram, até que um dia Deus anunciou que a vergonha sobre a mulher tinha data para acabar: “Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para Mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos” [Miquéias 5:2]. Pronto, depois que falara com a serpente a respeito do assunto, Deus novamente se pronunciava, confirmando Sua antiga profecia e trazendo novo alento à humanidade.

Mais 700 anos transcorreram. E eis que, de repente, aconteceu: Deus enviou o anjo Gabriel a Nazaré, cidade da Galileia, a uma virgem prometida em casamento a certo homem chamado José, descendente de Davi. O nome da virgem era Maria. O anjo, aproximando-se dela, disse:
— Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!
Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse:
— Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus! Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi [Lucas 1:26-32].

Missão quase cumprida. Filho prometido a Eva a caminho, descendente feminina encontrada em meio ao povo de Deus, cidade definida… só faltavam o dia e o modo como o salvador viria ao mundo. E mais uma vez Deus mostrou que honrava a mulher, a mulher-pessoa, a mulher-carne, a mulher que havia, sozinha, jogado a vida de bilhões e bilhões de pessoas na lama: engravida-a por Sua ação santa, sem interferência do homem, sem o esperma do homem. Bem que Deus poderia dispensar também o ventre de uma mulher para trazer Jesus à Terra, enviando-o diretamente do céu até nós. Mas, preferiu honrar a mulher, abrigando Seu amado filho por nove meses em seu ventre. “Ah, Eva, você se sente culpada por ter ido falar sozinha com a serpente e aceitado contrariar a Mim, o Deus de Israel? Pois também sozinha você dará vida ao salvador, sem interferência humana, sem a ação masculina, e assim a honrarei, deixando-a que a chamem de bem-aventurada [feliz] para sempre. Provarei que te amo acima do teu pecado e que não quero que você sofra. Tirarei o fardo de seus ombros e você será feliz, pois de uma descendente sua nascerá o redentor da humanidade”, era como se Deus dissesse. E Maria, a representante do lado feminino e legítima descendente de Eva, então pôde segurar nos braços o salvador do mundo, o filho único de Deus. Era como se a vida, antecipadamente, interpolasse as palavras do apóstolo Paulo: “Assim como por uma só mulher o pecado entrou no mundo, por outra saiu” [Romanos 5:10].

E Jesus nasceu. E com Ele as rejeitadas mulheres da época ganharam nova vida: Ele perdoou a adúltera, conversou com a inimiga samaritana [coisa proibidíssima na época], permitiu que Maria, da cidade de Magdala, andasse junto a seu grupo, curou a sogra de Pedro, atendeu ao pedido de sua mãe por mais vinho nas bodas de um casamento, concedeu a cura à filha da teimosa mulher siro-fenícia, curou a hemorrágica que apenas lhe tocou nas vestes e permitiu que as mulheres fossem as primeiras a vê-Lo ressuscitado. Ufa, que renascimento! Que alegria para as mulheres-objeto de então ver que um bondoso homem as amava como elas eram e dava-lhes um valor que nem mesmo elas sabiam possuir. Mais: que esse homem que as amava com ternura e bondade era o filho do Deus vivo.

Para quem acha que o livro de Gênesis é história pra boi dormir, até que esse fato do descendente de Eva ter vindo ao mundo e cumprido o que o livro fala já cria assunto para uma boa discussão, não é? Porém, o que realmente importa nessa citação é que Jesus ressuscitou e vivo está, e o diabo perdeu o controle sobre as nossas almas, porquanto Jesus cumpriu diante de Deus TODAS as exigências da lei dada a Moisés, e por isso desceu com autoridade às regiões do inferno e tomou das mãos do diabo as chaves que lhe permitiam governar nossas vidas. Eis Jesus ressuscitado, o diabo derrotado e os cristãos finalmente livres para serem felizes. O pecado que pesava sobre a idoneidade de Adão e Eva havia sido lavado com um produto muito especial, que retira toda mancha e toda imundície dos humanos: o sangue de Jesus.

Então, se você realmente entregou sua vida a Ele e crê nas centenas de promessas da Bíblia àqueles que O amam, descanse: passarão o céu e a Terra, mas as promessas de Deus para você não passarão; elas irão se cumprir. Podem não acontecer na data que você “marcou”, mas irão se cumprir. Porque Deus não mente jamais. Eva que o diga.

dez
10

Nome novo, receita antiga

Entrarei em férias, por isso o Toque Divino retorna apenas em 14 de janeiro.

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A revista trazia estampado na capa o tema do mês: “Por que você pode perder o emprego”. Li o artigo todo, coloquei-me no lugar de empresários que demitem e dos funcionários que são demitidos. Chamou-me a atenção o fato de quase 50% das empresas brasileiras esconderem do demitido a real causa pela qual o estão mandando embora. De fato, não é fácil falar a verdade, e especialmente num momento em que o funcionário está tão fragilizado pelo choque da situação. Como dizer-lhe que está sendo demitido porque não se relaciona bem com os colegas da empresa? Ou porque, apesar de seus muitos diplomas e cursos, sua fragilidade consiste exatamente em ter muito interesse pelo trabalho e pouco por aqueles que o cercam? Eu mesmo, certa vez, demiti um excelente designer pelo único fato de que vivia num mundo à parte dentro da empresa, criando barreiras intransponíveis de relacionamento. Um bloco de gelo não seria tão frio.

Bem, para ser sincero, o artigo causou-me alegria. Tenho usado o espaço destas mensagens há anos para dizer que uma pessoa vale por aquilo que é — exatamente por ser uma pessoa — e não pelos bens intelectuais ou patrimoniais que possui. Para Deus, um bárbaro criminoso tem tanto valor quanto um honrado e religioso chefe de família, ou um sacerdote ou um pastor ou um grande empresário cristão. A Bíblia indaga: “De que adianta você conquistar o mundo inteiro se vier a perder a tua alma?” [Marcos 8:36]. Há quem dê outra inflexão à frase e a cite assim: “Uma alma vale mais do que o mundo inteiro”. Não é esta razão — a da valorização humana — a mais forte pela qual as cruzadas cristãs dentro das prisões de segurança máxima têm obtido conversões profundas e contundentes?

O afeto está em alta. Nunca se falou nele como agora. Talvez porque nunca foi tão necessário. Para muitos, ser bem tratado por um balconista, gerente de banco ou motorista de ônibus está sendo uma grande novidade. Ficam realmente maravilhados ao receberem informações rápidas e gentis através dos serviços 0-800 de atendimento ao cliente. Mas, é técnico, é marketing, é “para manter clientes”. Não é amor, é apenas um tratamento no nível que a pessoa gosta e exige. Mas, convenhamos, ser bem tratado é uma delícia, não é? Porém, Jesus já falava nisso há 2.000 anos atrás; marketing é só um nome novo para a Sua antiga receita: “Faça ao próximo o que deseja para si mesmo”. Ora, ser bem tratado é uma coisa que todos desejam? Pois que se tratem bem as pessoas, diz o “marketeiro”. Mas, e se alguém dentro da empresa se negar a desenvolver relacionamentos com os clientes ou com os colegas, o que acontece com ele? Vai embora, diz a revista. Sério, não? O mundo ficou tão sem amor e a vida tão sem sentido que hoje as pessoas se veem obrigadas a tratar bem os outros. Ou ganham a conta.

Felizmente, no cristianismo não é assim. Ninguém é obrigado a nada. Todos são livres perante Deus para fazer o que quiserem. Por isso mesmo, diz o apóstolo Paulo, ninguém pode se gabar de ter merecido algo da parte de Deus por suas próprias ações. Se recebeu, recebeu porque Deus é bom. Sem honrarias ou menções especiais. Um João Batista é tão importante para Deus quanto o ladrão convertido na cruz. Ambos se tornaram filhos “por adesão”, isto é, porque se tornaram irmãos de Jesus, o Seu filho. E isto porque Jesus é quem “quebrou o nosso galho” diante do Pai, “limpando a barra” e abrindo-nos as portas para a eternidade.

Daí podemos tirar duas lições. Primeira: se você está meio santo, tipo João Batista, não se preocupe: seu lugar no céu está garantido; e se está mais para o ladrão na cruz — aquele que se arrependeu, e não o que zombou de Jesus — seu lugar também está assegurado, desde que você se reconheça pecador, arrependa-se verdadeiramente de seus maus propósitos e mude de vida. Segunda: a de que nós, que facilmente ficamos impressionados pelo marketing de relacionamento das empresas onde fazemos compras, nem imaginamos o que pode ser a vida com Deus que nos aguarda, uma vez que das empresas recebemos um bom tratamento porque delas compramos, mas a Deus nada demos ou Lhe fizemos para que nos tornássemos dignos de receber algo de Sua parte. Ou seja, partindo dEle, é amor mesmo, gratuito, sem compras ou sem nada a nos pedir ou cobrar. Os criminosos de alta periculosidade poderiam responder: se Deus não os aceitasse porque Ele é bom, por qual razão perdoaria pessoas hodiendas aos olhos da humanidade?

O natal está chegando. E o ano novo também. Aproveite e renove a tua esperança nesse Deus maravilhoso, pondo pra quebrar em 2012. Ore mais, cante mais, confie mais, espere mais, ame mais os que estão à tua volta e faça diferença na vida dos outros: junte um clips do chão; tire os cabelos do ralo do chuveiro e jogue-os na lixeira; apague as luzes quando não houver pessoas no aposento; não estacione em vaga para deficientes ou idosos; respeite a velocidade no trânsito; não pare em fila dupla; deixe que um veículo saindo do estacionamento passe à tua frente; dê a vez no supermercado a alguém que está aflito por causa do horário e tem menos compras na cesta ou no carrinho que você; desligue o monitor do micro quando tocar o telefone; faça silêncio profundo ao ter que ouvir uma pessoa que você não admira e a ouça bem, do teu mais profundo, sem nada falar — coisas assim. Só orar não vai fazer diferença; é o teu agir que mudará a ordem das coisas. Se pessoas furam fila no trânsito ou xingam quem não merece e você faz o mesmo, que diferença você faz? E se muitos apenas falam mal e criticam os outros e você os imita, que diferença você faz? Isso é papel do diabo (diabo = do grego diabolos, acusador).

Deus te ama. E o natal só renova a mensagem bimilenar desta verdade: Jesus nasceu e morreu para que você vivesse em paz aqui na Terra e, quando morresse, fosse feliz no céu. O resto é enganação: papai noel, presentes, árvore natalina… É coisa da mídia, de alguém que um dia, lá num país cheio de neve, que nada tem a ver conosco, inventou para alegrar alguém e a coisa ganhou o mundo. “Ah, Cezar, como você é frio!”, você pode dizer. Bem, pode ser, mas que tudo isso é frescura, isso é. Imagine aparecer alguém na estrebaria onde Jesus nasceu, vestido de vermelho e branco naquele calor horrível, e rir: “Ô, ô, ô”. Ridículo, pra dizer o mínimo. Maria e José olhariam para ele e se perguntariam: “E este aí, de que planeta caiu?”.

Quer dar presente? Dê, pois os três reis deram presentes a Jesus ao visitá-Lo. Vai chorar no fim do ano? Chore, Jesus também chorava. Vai fazer ceia da meia-noite? Faça, mas não se entupa de comida e champanhe, isso não faz bem e você pode passar a noite em claro. Enfim, se é festa o que você quer, festeje. Deus é o maior festeiro que eu já conheci e a Bíblia prova isso com as inúmeras festas que Ele mesmo criou para o Seu povo. Mas, entenda que nada disso é natal. Natal é o amor entre nós, e se a Bíblia diz que Deus é amor e que Jesus veio conviver com a humanidade, então o amor veio nEle e com Ele. E o natal é só isso. O resto é enfeite. Por isso mesmo, não confunda natal com presentes. Natal = Jesus; presentes = papai noel. Há uma enorme diferença. E Deus quer mais que você ensine teus filhos quanto a isso, explicando-lhes a verdadeira diferença entre uma coisa e outra. Ah, notou a palavra “diferença” outra vez? Pois é, você pode fazê-la neste natal e no ano novo inteiro. Basta querer.

O amor está em alta. O afeto, idem. Aproveite pra pôr o teu coração em ordem e abrace, beije, ria, cante, louve, adore quem que te criou, e não apenas no natal e ano novo, mas em 2012 inteiro. Porque Deus está entre nós.

dez
03

Rute e Ester — uma reflexão

Se você tem um pouco de intimidade com a Bíblia, então já deve ter ouvido falar ou mesmo lido os livros de Rute e Ester. São as duas únicas mulheres a emprestarem seus nomes para intitular livros na Bíblia pelo menos, na evangélica. A católica tem o de Judite.

A história de Rute inicia com a de sua sogra, Noemi, uma mulher judia que migrou para o território dos moabitas com seu marido porque ambos estavam passando fome na região de Judá. O marido de Noemi, que se chamava Abimeleque, veio a falecer, ficando a pobrezinha com os dois filhos, os quais se casaram com duas moabitas. Mas, logo morreram também os filhos. E a viúva, desgostosa, decidiu voltar à terra de Judá, onde tinha parentes. Rute, uma das noras, foi com ela, para não deixá-la ir sozinha, mesmo contra a vontade da sogra. Noemi tinha um parente do marido em Judá, chamado Boaz, o qual era muito rico, bondoso e temente a Deus, admirado e respeitado por sua conduta. Rute foi ao campo para juntar do chão as sobras que caíam das mãos dos homens que faziam a colheita e acabou entrando nas terras de Boaz. Este veio ter com ela e disse-lhe que podia colher do chão, e que nenhum empregado seu a incomodaria. Depois, mandou que lhe dessem uns bons feixes de cereal. Conversa vai, conversa vem, os dois aproximaram-se e Noemi sugeriu que a nora se casasse com Boaz. Uma vez casados, logo lhes nasceu um filho, e a sogra Noemi em tudo passa a ajudar a nora Rute. E todos que as conheciam as chamavam de bem-aventuradas. E diziam a Boaz: tu és um homem de sorte!

Já a história de Ester inicia-se com uma festa que o então poderoso rei Assuero (ou Xerxes) oferece aos príncipes e governadores das suas 127 províncias, que iam da Índia à Etiópia. O rei estava alegre porque havia bebido muito vinho e mandou chamar a rainha Vasti, para que todos conhecessem a sua formosura. Mas, ela desobedeceu a ordem e não apareceu. O rei, furioso, destronou a rainha e mandou encontrar uma outra. Depois de dar busca em todo o reino, Ester, uma judia, foi a escolhida. Seu pai adotivo, Mordecai, foi com ela. E andando um dia pelo palácio, Mordecai ouviu que queriam matar o rei. Conta para Ester, que conta para o rei, e os traidores são mortos. Aí, o rei elege um novo chefe da segurança, um tal de Hamã. E por sugestão do próprio, cria um decreto mandando todo mundo se ajoelhar diante desse Hamã quando ele passasse. Mordecai, que era judeu, se recusou a honrá-lo. Hamã então decide matar Mordecai por causa disso; depois, pensa melhor e decide matar também todo o povo dele no reino, conseguindo, por meio de artifícios, um decreto real autorizando-o a fazê-lo. Ester faz chegar essa notícia ao seu povo e cria um plano para salvá-lo, indo até a presença do rei. Para tanto, convida-o e também a Hamã para uma festa em seu palácio. Na festa, o rei bebe bastante e diz: “Peça-me o que quiseres, Ester, e eu te darei”. Ester conta que queria a morte de um subordinado do rei que estava tentando matar todo o povo de onde ela tinha vindo. O rei pergunta quem é essa pessoa. Ester diz que é Hamã. O rei fica nervoso e sai para a varanda. Hamã, tendo ouvido a conversa, pois estava próximo dos dois, vendo a morte por perto, aproveita ao ver que o rei saiu para a varanda e joga-se sobre o sofá da rainha a fim de pedir-lhe clemência e, sem querer, cai sobre ela. O rei volta da varanda e vê a cena. Então diz: “Além de querer matar o povo da minha esposa, ainda está querendo tocá-la?”. No fim das contas Hamã, por ordem do rei, morreu na forca que mandara preparar para Mordecai, o pai adotivo de Ester, o qual passou a ser o segundo no reino depois do rei. E Ester ficou no trono com Assuero.

Amados, um dia li esses dois livros um em seguida do outro e, emoções à parte (os livros são apaixonantes), analisei algumas situações, tal como o nosso próprio Deus recomenda: “Medite na minha palavra”. Gostaria de falar a respeito das curiosidades que deles extraí. Claro, não são críticas, são reflexões, pois não questiono a Palavra de Deus: o que está lá, está lá e pronto. Isso não discuto e muito menos julgo. Mas, que me fizeram pensar, isso fizeram.

Ester teve bastante: pai adotivo no lugar do que morrera, depois riqueza, poder e prestígio, e dela não mais se fala. Já Rute perdeu o marido, o cunhado e o sogro e, depois de rastejar na lavoura atrás de comida, ainda constou na árvore genealógica hebraica como avó do rei Davi e antepassada de Jesus. Nos dez capítulos de Ester, o nome de Deus não aparece sequer uma vez, enquanto que o do rei pagão Assuero é mencionado mais de 150 vezes; também não há alusão à oração nem a nenhum tipo de serviço espiritual, exceto o do jejum. Já no livro de Rute o nome de Deus aparece 21 vezes. Ester conhecia a Deus, mas casou-se com um gentio; Rute era gentia e se casou com um judeu. Rute era elogiada por sua humildade e amor à sogra; Ester, por ter-se tornado rainha. No final, existe o fato comum de que ambas ficaram bem, pois os dois maridos eram ricos e poderosos.

Às vezes, lendo ou ouvindo a Palavra, somos tomados pela emoção do momento e deixamo-nos levar por mil pensamentos. Tendemos a dar mais valor a histórias como a de Ester do que às de Rute. A da primeira tem mais charme, mais status, mais… “tchan”. A da segunda, bem, essa é igual à da maioria das pessoas: dor, solidão, pobreza, e lá no fim alguém que aparece, se apieda e dá um jeito nas coisas.

Muitas vidas cristãs têm lindas e emocionantes histórias a relatar, mas, às vezes, o nome de Deus não aparece nelas. Basta ouvir pessoas contar de como foram salvas de um acidente, de como receberam um dinheiro praticamente perdido justo na hora em que mais necessitavam, de um filho que passou no vestibular de medicina sem que se saiba como, etc.: em seus lábios, muitas vezes, não aparecem as palavras “Deus”, “milagre” ou “graça”, da mesma forma que o livro de Ester não cita Deus. Muitos acham que as bênçãos recebidas são obra do acaso, uma coincidência, digamos. Claro, Ester era judia, seu pai adotivo também, e ambos tudo fizeram para que Jeová, o deus dos hebreus, fosse honrado. Entretanto, não é disso que falo. Falo de um livro que, curiosamente, não cita Deus, da mesma forma que algumas vidas não o fazem, mesmo quando se sabe que, por detrás de todo aquele bem-estar, daquela paz, daqueles filhos inteligentes e saudáveis, daquele casamento feliz, está a mão de Deus. “Sem mim,” dizia Jesus, “nada podeis fazer” [João 15:5]. As pessoas não falam, mas sem Jesus na causa, nada dessas boas coisas lhes aconteceriam.

Vamos a fatos mais corriqueiros. Digamos que você seja cristão e em casa ore à mesa antes das refeições, dando graças a Deus pelo alimento recebido. Imagine-se agora num restaurante. Você é empresário, está de terno e gravata e há outros colegas empresários em tua mesa. É um almoço de negócios. Eles não são cristãos; ou pelo menos suas atitudes nunca revelaram isso. No instante de levar a garfo à boca, o Espírito Santo te recorda que você não agradeceu a Deus pelo gostoso almoço que te espera. Você para e pensa: “Oro ou não oro? Fecho os olhos e agradeço na cara dura, como sempre faço em casa com as crianças, ou entro na deles, deixando quieto e começando a comer?”. Bem, o que você faria eu não sei. Te digo o que eu faço: fecho os olhos, inclino a cabeça e agradeço a Deus em silêncio. Às vezes, quando estou com apenas um ou dois empresários, sou mais ousado e peço a ambos para orarmos antes de comer. Meio sem entender, concordam, claro. Aí, digo algumas palavras de agradecimento e pronto, começamos a comer. Não raro, os garçons que chegam naquele momento para perguntar-nos sobre o que desejamos beber oram junto, ou apenas silenciam. Isso faz diferença nos meus relacionamentos comerciais: de um instante para outro, o tom da conversa muda e as pessoas com as quais estou, já notei, passam a tratar-me com mais respeito.

Sabe, você não pode envergonhar-se de Deus diante dos outros. Jesus disse que se isso acontecer, Ele também se envergonhará de você no dia do juízo final e você irá para o inferno [Lucas 9:26]. Claro, não precisa subir na mesa e gritar que está agradecido a Ele pela refeição: você não é um bobo, um tolo. Mas, se Ele pediu [ou mandou?] que o amássemos acima de todas as coisas e pessoas [Deuteronômio 6:5], então demonstre isso.

Entende agora por que a comparação entre os dois livros me deixou pensativo? Foi porque me perguntei: e no livro da minha vida, quantas vezes o nome de Deus aparece? E de que forma? As pessoas O percebem na minha vida? Os textos que escrevo demonstram que Ele realmente age em mim? E com você: a palavra “Deus” é perceptível como no livro de Rute ou é invisível, oculta, como no livro de Ester? Ambas eram mulheres de Deus, talvez como você seja. Mas, o nome de Deus está estampado nesse teu livro? Está claro, visível? Podem falar da tua vida a céu aberto, tal como falou a sunamita sobre o profeta Eliseu: “Lá vai um santo homem de Deus”? [2 Reis 4:9]. Ou o nosso cristianismo é subliminar, acobertado, não-aparente, não-visível?

Conheço algumas pessoas que se dizem cristãs, possuidoras de máquinas possantes, as quais, quando viajam em rodovias sem muitos veículos, tipo as do interior do Mato Grosso, andam a 200, 220, 230 km/hora. Dizem que “se não andarem naquela velocidade, os outros passam por cima deles”. Até onde eu sei, o máximo que se pode trafegar em estradas no Brasil é a 120 km/hora. Um pastor disse-me esta semana que, de tanto me ouvir falar em obediência a Deus e às autoridades, nunca enxergou tanta placa de 30, 40, 60, 80 km/hora. Antes, andava na velocidade que queria. Agora, anda naquela que a lei manda. Bem, não sei como você anda. Talvez você nem carro tenha, ou não dirija. Mas, se quiser saber a quantas anda o teu amor por Deus, pergunte a você mesmo: se fossem escrever um livro a teu respeito após tua morte, você acha que o biógrafo citaria o nome de Jesus — o nosso Deus por excelência — quantas vezes? Ou nem O citaria? As pessoas sabem que você é cristão? Você age como um? Notam que você é diferente, que não fura fila do supermercado ou do coletivo urbano, e que anda na contracorrente, na contramão do mundo?

Se não anda, não se apavore: ainda dá tempo. O livro é o da tua vida; e o escritor, você. Nesse teu livro ninguém põe o dedo nem a caneta, a não ser você. Mesmo Deus não interfere nele, pois senão você não seria livre para fazer o que quiser. Amar a Deus é uma opção, não uma obrigação. E é por isso — por sermos totalmente livres — que somos totalmente responsáveis pela nossa salvação. Jesus já morreu por nós e deu-nos o céu. Chegar até lá é tarefa nossa, não dEle. “Ah, Ele se foi e deixou-nos aqui sozinhos”, você pode alegar. Não é verdade. Ele deixou-nos o Espírito Santo, o consolador, o cheio-de-poder, aquele que veio do céu apenas para nos ajudar a chegar a ele. Mas, como eu dizia, ainda dá tempo de começar a escrever “Jesus Meu Salvador” em tuas páginas. Se os livros de Rute e Ester começaram de forma muito diferente — o primeiro com muito sofrimento e o segundo com muita prosperidade —, no final eles terminaram de forma idêntica: relatando o sucesso de ambas em todas as áreas de suas vidas. O que nos incentiva a dizer que, não importando como seja a tua vida hoje, estando o teu livro vazio ou repleto de menções a Jesus, sendo você um fraco na fé ou um guerreiro de Deus, tendo você começado há muito ou há pouco tempo, sofrendo bastante ou vivendo sem dificuldades, saiba que o amor de Deus passa por cima de tudo isso e te convida a gozar uma vida de paz aqui na Terra e de esplendor e alegria no céu. Porque, no fundo, não importa como nossas vidas começaram; importa, isso sim, o que delas fazemos e como elas terminarão. Jesus começou num cocho cheio de palhas e acabou no céu, à direita de Deus. Então, admitamos que Ele entende desse negócio de “chegar lá”. Basta entrar na escola dEle, tomar umas aulas e aprender o O-B-D-C, o alfabeto cristão. Obedecendo as suas ordens e ensinamentos, não tem erro: você já está com um pé no paraíso. O caderno e a caneta você já tem, inclusive um livro para anotações. O resto é com você.

E aí, vamos começar a escrever?

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